terça-feira, 30 de agosto de 2011

O 111 ais de Dalton Trevisan


Sempre achei interessante a maneira pela qual as manifestações artísticas no geral são influenciadas pelo contexto histórico, social, político, ideológico, econômico, enfim, por tudo aquilo que é humano afinal. Claro que não cabe aqui tratar disso de forma tão abrangente, de modo a atingir todas as artes. Procurarei me deter apenas ao que me cabe nesta postagem: literatura.

Os chamados movimentos literários – ou mesmo escolas literárias – são, a meu ver, a maior representação disso. Tomemos como exemplo o Romantismo. Surgido na Europa no século XVIII, traz inicialmente como marca a rebeldia dos grandes movimentos políticos ocorridos naquela região (a Revolução Francesa, por exemplo). Entretanto, no Brasil, o Romantismo acaba por evidenciar e, de certa forma, legitimar a vida de uma nova classe social que se estabelecia naquele período, a burguesia. Ou seja, contextos históricos, políticos e sociais diferentes resultando em um mesmo movimento literário que se expressa diferente.

Mas aí você me pergunta: por que diabos ela está falando disso tudo? Aí eu respondo: muito simples, meus caros, pois o livro que escolhi para esta postagem é a representação literária de como todos os contextos que expus no início deste texto contribuem na produção literária.

Dalton Trevisan, escritor curitibano, é um dos grandes contistas brasileiros ainda vivo e em produção. Tem mais de 40 livros publicados e dentre eles está o 111 ais, recém-descoberto e lido por esta que vos escreve. Lançado em 2000, 111 ais traz 111 micro-contos não-nominados, juntamente com ilustrações referentes a cada história narrada. São histórias que variam em extensão entre uma página e duas ou três linhas. São também em sua maioria olhares críticos e densos sobre a realidade. O que mais me impressionou foi a rara capacidade literária do Trevisan de traduzir em pouquíssimas palavras situações cômicas, profundas, irônicas, safadas, mas, sobretudo, humanas (quisera eu ter talento igual a este). Mais abaixo há dois desses 111 ais do Trevisan, vejam por conta própria o que o Trevisan faz:


- Assim é muito fácil. Ela te deixa por outro. Depois fica ligando só pra chorar.
- Isso aí.
- Diga não, ô cara. No teu ombro, não. Que se dane, a maldita.
- Sei, eu sei. Só que eu também tenho ligado pra ela e chorado.
(p. 99)

O velhote, bem tristonho:
- Ainda fica duro, o carinha. Só que não trava.
(p. 97)


Para finalizar o raciocínio e, de quebra, a postagem, voltemos às influências que coloquei no início deste texto. Trevisan publicou 111 ais no início dos anos 2000, começo de um novo século, marcado principalmente pelas revoluções tecnológicas. David Harvey, geógrafo britânico, em seu livro A condição pós-moderna (1992), aborda um aspecto o qual me veio à mente enquanto lia os micro-contos de Trevisan e que ressalto aqui: as transformações nos conceitos e percepções de tempo e espaço – aquilo que ele denomina de compressão tempo-espaço – na pós-modernidade. Em suma: o avanço da tecnologia contribui significativamente na construção de novos signos e imagens; vê-se a constante descartabilidade dos bens consumidos e a necessidade de que tudo seja “para ontem”; as distâncias que tornaram mínimas, enfim, nada mais do que esta geração do tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E se sempre há muita coisa a ser feita/cumprida/alcançada/desejada, onde a literatura fica (se ler demanda tempo e, sobretudo, vontade)?

Falta de tempo era a desculpa de que dava a mim mesma para a minha notória queda em minha lista de livros lidos. Era. Até eu chegar novamente, e meio sem querer, ao Dalton Trevisan. 111 ais é o típico livro de bolso que todos deviam trazer consigo, para ler sempre, duas ou três breves linhas de profunda humanidade. Não requer de nós tanto tempo de leitura (você pode ler dois ou três micro-contos enquanto espera o ônibus ou o troco do pão). Mas que ao mesmo tempo em não nos exigem tempo para leitura (perdoem-me a repetição), exigem-nos, de modo inversamente proporcional, reflexão sobre o que é lido. Espero que vocês apreciem também e que falta de tempo não seja mais uma auto-desculpa para não incluir literatura como um dos seus vícios.


Reclamações, sugestões e xingamentos, por favor, mais abaixo.

2 comentários:

Thayanne Freitas disse...

Dalton Trevisan é tudo o que falta no Twitter né?!?Poucas palavras, mas palavras de impacto.Ele faria maior sucesso em 140 caracteres!!rsrs


111 Ais p/ essa postagem emergencial, mas de boa qualidade!!

;)

Thiago César disse...

a coisa q eu tenho mais preguiça de fazer é pegar um livro pra ler... infelizmente meu interesse pela literatura praticamente sumiu há 6 anos atrás, quando eu passei no vestibular... mas esse livro aí parece ser uma boa opção pra pessoas como eu, já que consistem em mini-contos, ainda mais porque conto eh o meu formato preferido de literatura!