segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Um nada político Carlos Lacerda


(Ó gente sem passado, como a virtude é feita de tantos silêncios!)” - LACERDA, Carlos – conto José e seu roubo.


Político querer se meter na literatura tem “de ruma” por aí. Alguns, politicamente, até entram para a Academia Brasileira de Letras, mas quanto a talento literário mesmo, deixam a desejar.
Carlos Lacerda me apareceu ao acaso, no Sebo do Messias [e aí já vai a minha primeira indicação] e me despertou a curiosidade. Seu trabalho político eu já conhecia, foi Governador da Guanabara, deputado federal. Mas ele ficou conhecido politicamente por rivalizar com Getúlio Vargas, JK e foi aliado do Golpe Militar de 1964, até que os militares resolveram não mais dar o governo aos civis.
O que eu descobri comprando o livro é que ele era jornalista e um grande escritor. Para mim e para Carlos Drummond de Andrade, melhor escrevendo do que politicando: “Ainda que você não tivesse outros títulos e tem muitos a serem inscritos na memória de nossa terra e gente bastaria este autor de “A casa do meu avô”, para permitir-lhe esse lugar que importa mais do que os lugares convencionalmente tidos como importantes”.
O livro lido, e agora em minhas mãos, é “21 contos inéditos de Carlos Lacerda”, fruto da pesquisa da FUNDAMAR e editado pela UnB e Imprensa Oficial. Confesso que comprei por curiosidade, foi um tiro no escuro, mas a bala acertou em cheio num grande livro.
A grande virtude do livro está justamente no grande teor lírico que há na prosa. Josué Montello afirma que CL escreve “Uma prosa que prescinde do verso por ser poesia genuína”. Afirmação curta, mas que fala bem o que é lê-lo.
Outra ponto que eu considerei vantagem, mas acredito que seus fãs assim não verão, é o fato dele não falar em política. Mas sensibilidade crítica continua, e de muito bom tom:
Se chamo a atenção para a preocupação de Mário com os cachorros, é para ver se à custa dos cachorros se comovem as criaturas de coração fechado para as tristezas humanas. Quantos são aqueles que choram no cinema quando a estrela sofre, e não sentem nada dentro de si quanto encontram o sofrimento cá fora. Esses que pagam para sofrer com a imagem da dor alheia e não se interessam pelo sofrimento grátis.
Para esses, todos esses, dedico esta história de cachorros, sentindo não ter uma comovente história de percevejos para contar.” LACERDA, Carlos – conto História Comovente para Cachorro.

Esses 21 são contos do melhor estilo. Curtos, longos; críticos, a atingir a quem se doer; leves, em tom de anedota; líricos, em rasgadas declarações ou tristonhas despedidas. Os menos românticos podem até não gostar disso, mas quero ver alguém dizer que isso não é bonito:

Não quero voltar ao tema e parecer que procuro convencê-la a abandonar o seu abandono, a desistir da sua desistência. Como lhe disse nessa conversa incompleta que se faz por telefone, a decisão é sua e eu tenho de aceitá-la porque concordo que é a única sensata, etc. Mas, tinha que ser tão cedo? Tão definitiva? Tinha que ser assim? Sem uma noite inteira, sem um dia sequer, de começo ao fim, nosso, somente, nosso? Então haveria pelo menos lembranças, melancólicas talvez, mas bem mais fáceis de guardar do que sobressaltos e intervalos. Assim como foi, tornou-se uma espécie de amputação voluntária, como cortar um grande pedaço da alma.” LACERCA, Carlos – conto A Despedida.

Lacerda não praticava a literatura com assiduidade, esse livro mesmo já demonstra isso. Ele é dividido em duas partes chamadas de “Contos da Juventude” e “Contos da Maturidade”, o primeiro escrito na década de 1930 e o segundo após o Golpe de 64. Nas duas ocasiões o Brasil estava sob ditaduras militares e ele estava proibido de militar politicamente. Na falta da política, eis a literatura!
Como eu gosto de frases que resumam tudo que estou querendo dizer, mais uma vez encerro com uma frase do homenageado, uma que resuma bem o que é a literatura de Carlos Lacerda: lirismo e criticidade juntos, harmoniosamente como, talvez, só ele saberia fazer.
“Quem nasceu com esse riso que você tem é alegre demais para compreender”.


CA Ribeiro Neto
 http://twitter.com/caribeironeto

5 comentários:

Thiago César disse...

o único tipo de literatura que noutra época já me fez ir catar livros na biblioteca é o conto. e também é o único tipo de literatura por que noutra época eu já me interessei em escrever.

Camila Travassos disse...

O fato de ele não falar de política me interessou. O fato de ele escrever meio liricamente me desinteressou. Sou normal? xD


Agora, me diz, tenho quase certeza de que o trecho: "Os menos românticos podem até não gostar disso, mas quero ver alguém dizer que isso não é bonito (...)" foi pra mim, né? hahaha =D Eu curto os contemporâneos, com linhas pós-modernas mesmo. Lirismo apenas em raríssimos momentos.


Mas, falando sério, gostei do post - ao meu ver, é o teu melhor texto publicado até agora. Cheio de informações sobre a obra e o contexto. É o dizer sem dizer muito, sugerindo apenas.

Parabéns, Carlim!
(:

CA Ribeiro Neto disse...

Mas a Camila se acha mesmo, né...

Camila Travassos disse...

Tu achas?
hahaha xD

Thayanne Freitas disse...

Sugeriu tão bem que vou atrás do livro para comprar!!(querer comprar um livro, é realmente um milagre)rs

Sou romântica (eu acho) e gostei do cara, e da tua postagem também!!

*.*