domingo, 17 de julho de 2011

"O Mensageiro Trapalhão" e a comédia de Jerry Lewis

Imagine você assistir a um filme onde a primeiríssima cena que aparece – antes mesmo dos créditos de abertura – é de um homem em um escritório que se diz ser o produtor-executivo responsável por todas as produções feitas na Paramount. Ele diz que, antes de mostrar o filme, é preciso explicar uma coisa: O filme que você está prestes a assistir não é comum como os que têm sido apresentados ao público de cinema atualmente. [...] É só um pouco diferente, pois não tem nenhuma história e nenhum enredo. [...] Na verdade, é uma série de sequências tolas ou, pode-se dizer, um diário visual de algumas semanas na vida de um verdadeiro louco. Em seguida, o tal produtor-executivo cai numa gargalhada tão insana quanto o resto do filme.

Esse é o começo de O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy), um filme estadunidense de 1960 escrito, produzido, dirigido e estrelado por um dos maiores nomes do cinema de comédia, Jerry Lewis. Só o fato de ele exercer todas as principais funções de um filme sem noção como esse, já diz muito sobre seu estilo. Analisando outras películas escritas e dirigidas por Lewis, como O Terror das Mulheres (The Ladies Man) e O Mocinho Encrenqueiro (The Errand Boy), podemos perceber sua inclinação para um tipo de filme que dispensa enredo, sendo constituído principalmente de situações que não estabelecem relações necessárias para com a trama ou entre si.

Não precisa ser um expert para perceber que esse tipo de comédia certamente é uma herança do cinema mudo, baseando-se principalmente no caráter físico do humor, com caretas e trapalhadas, onde as situações mais engraçadas pouco ou nada contribuem para o desenvolvimento da história. Talvez isso possa soar como uma crítica negativa a respeito desse modo de fazer humor, mas não me entenda mal, pois são poucos os que sabem fazer disso uma verdadeira obra-prima, e Jerry Lewis é um desses. Alguns dos melhores exemplos disso nos seus filmes são a cena em que tenta chamar o elevador em O Mensageiro Trapalhão – na verdade, este filme inteiro pode servir de exemplo –, a cena em que finge ser um delinquente em Delinquente Delicado (The Delicate Delinquent) e a cena em que chega à casa do seu professor de canto em O Otário (The Patsy).

Além desses momentos onde a capacidade de improvisação conta mais do que qualquer outra coisa, há outros momentos que fazem você notar o quão variado é o talento de determinado artista, somando outros tipos de entretenimento à comédia. Não é difícil assistir a um filme de Jerry Lewis onde ele cante – como em O Rei do Laço (Pardners) – ou dance – como em Cinderelo sem Sapato (Cinderfella). Outros exemplos de cenas em que é preciso muito ensaio e pouco improviso são a cena que ele se apresenta com uma banda em Bancando a Ama-Seca (Rock-a-Baby), a cena da performance de pantomima em O Mocinho Encrenqueiro e a famosa cena pantomímica com a música The Typewriter – tendo apresentado em diversas outras ocasiões, havendo até uma paródia no desenho animado Animaniacs – em Errado pra Cachorro (Who's Minding the Store?).

Agora falando mais especificamente sobre o filme a que esse post diz respeito, é interessante observar que Jerry Lewis soube aproveitar muito bem a sua grande porcentagem de controle sobre a produção, convidando vários atores de seu gosto para participações especiais no filme. Um deles é Jack Kruschen, que faz o papel daquele produtor-executivo sobre o qual falei no começo, que aparece na cena introdutória do filme, tendo recebido uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante naquele mesmo ano pelo filme Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment).

Porém, infelizmente, a principal dessas participações especiais não aconteceu. Jerry Lewis convidou o seu ídolo, Stan Laurel, o Magro de O Gordo e o Magro (Laurel and Hardy), para participar de O Mensageiro Trapalhão, interpretando o personagem que lhe consagrou. Entretanto, Laurel preferiu recusar amigavelmente o convite devido à sua idade avançada, mas se ofereceu para dar conselhos e sugestões durante a produção do filme, uma vez que era a estréia de Jerry Lewis na direção de um longa-metragem. Dessa forma, Lewis contratou seu amigo e parceiro de várias outras produções, Bill Richmond, para interpretar o Magro, mas fez questão de agradecer a todas as sugestões de Laurel, mesmo que algumas vezes não as acatasse, como foi o caso do título sugerido por ele.

Não podemos deixar de supor que o próprio personagem título do filme, interpretado por Jerry Lewis, é uma grande homenagem a Stan Laurel, pois o mensageiro trapalhão possui várias características semelhantes as do Magro, como o assobio, e até seu nome é o mesmo de Laurel: Stanley. Lewis admirava tanto o trabalho e a pessoa de Laurel que, já após sua morte, disse em uma entrevista: "Ele era alguém que eu acho que eles deveriam ter 'arranjado' para ter vivido para sempre. Eles deveriam ter dado um jeito de alguma maneira."

Bem, neste post eu acabei fazendo mais de uma recomendação de filme, pois na verdade a intenção é recomendar todo o trabalho de um artista. A escolha de O Mensageiro Trapalhão para o título é meramente ilustrativo, refletindo apenas a minha opinião do que exemplifica mais o seu estilo de fazer comédia. Enfim, para quem gosta de um humor simples, inocente e pateta, mas de ótima qualidade, desejo um bom filme!

Thiago César

5 comentários:

João Bosco Maia disse...

Vagando nessas tantas ruas virtuais, encontrei tua porta de amante das Letras aberta - e entrei. Devo anunciar-me como um desses que diz "Oi, de casa! Trago aqui em minhas mãos a chave para dias melhores: escrevo e vendo livros!". Assim, venho te convidar para visitar o meu blog e conhecer as sinopses de meus romances, a forma de adquiri-los e, posteriormente, discuti-los. Três deles estão disponíveis inclusive para serem baixados “de grátis”, em formato PDF.
Um grande abraço literário,

João Bosco Maia

CA Ribeiro Neto disse...

Macho, eu assistia muito esse tipo de filme na minha infância, então, não sei bem o que eu já conhecia dele. Mas vendo-o nesses links, sei que já assisti. Mas o que ficou mesmo gravado em minha memória foi o Gordo e o Magro [não sei porque eu me identificava mais com o gordo heurheurhuehruehrueh] e Chaplin!

Thayanne Freitas disse...

Devo salientar que o que mais me chama atenção nas suas postagens são exatamente os links e o seu texto crítico sobre a obra (a estrutura do seu texto). Acho que já disse isso antes! :p

É justamente esse conjunto que possibilita o leitor conhecer sobre a obra em questão e tomar conhecimento sobre os vários diretores consagrados ou não da sétima arte. Tudo isso de forma clara e objetiva.

Mas voltando ao post em questão! Não lembro de ter visto algum filme de Jerry Lewis, mas vendo os vídeos postados percebo o quanto ele é hilário e um artista que revela um humor inocente. No "O Otário" (cena em que chega à casa do seu professor de canto) e no filme "O delinquente Delicado"(cena em que finge ser um delinquente), foram as cenas que eu mais gostei.

;)

Camila Travassos disse...

Com certeza, dentre nós quatro, o que melhor produz post és tu - levas a sério esta bagaça e, por conta disso, terei de me esforçar mais também xD - e a prova maior disso (até agora) é este post: repleto de links e informações consistentes e válidas.

Já disse antes, mas vou repetir de novo (sempre): possuo conhecimento quase nulo sobre cinema. Mas muito me agradou clicar nos inúmeros links que atribuíste ao teu texto e, assim, poder perceber, mesmo que brevemente, a mudança no tipo de humor feito antes para o que é feito agora; a mudança de recursos cinematográficos também, enfim.

Gostei - e tenho gostado bastante por sinal - dos teus posts (acho que as 12.496 reuniões do Apontarte que fizemos nesses últimos 10 dias surtirão efeito xD).

Paulo Henrique Passos disse...

Cara, muito bom mesmo poder conhecer um artista assim num post de um amigo. Não conhecia o Jerry Lewis, mas gostei muito mesmo; me fez lembrar muito o Chaplin, que eu adoro. Certamente, a partir de agora, vou procurar filmes do Lewis.

Valeu pela ótima indicação, e parabéns pela postagem