segunda-feira, 23 de maio de 2011

"A Erva do Rato", um oásis no cinema nacional

A Erva do Rato é um filme brasileiro de 2008 baseado livremente em dois contos de Machado de Assis, A Causa Secreta e Um Esqueleto. O filme conta a história de um homem que conhece uma mulher no cemitério. Ela havia acabado de perder o pai e estava sozinha no mundo. Assim, o homem se propõe a cuidar dela, dando início a um tipo de relação ao mesmo tempo formal e invasiva. Embora seja importante uma melhor descrição do que ocorre no filme, não me proponho a fazê-lo aqui, pois o meu intuito é falar de outros aspectos que não a história em si.

Então, o que faz com que A Erva do Rato seja considerado por mim um oásis no cinema nacional? Simplesmente porque a principal forma de linguagem utilizada é a imagem, e não as palavras. O filme se apóia na base mais fundamental da arte cinematográfica, esquecida ao longo do tempo e raramente presente no cinema contemporâneo, com exceção do europeu. Os diálogos se limitam a acontecer somente quando muito necessários, e a história é contada através dos enquadramentos perfeitos, do excelente trabalho entre luz e sombra e de um silêncio que inquieta, incomoda e força uma reflexão.

Em meio a uma produção nacional que se limita aos mesmos temas, uma obra que não descansa ao dar prioridade à força simbólica de cada cena merece ser reconhecida. Este é o melhor uso da técnica, quando está a favor da construção de imagens que despertam sentimentos acerca do próprio filme ou até que extrapole este território. Afinal, já disse um dos cineastas mais devotos ao seu trabalho, Alfred Hitchcock, em uma de suas entrevistas: “Eu não estou interessado no conteúdo, não dou a mínima para sobre o que é o filme. Estou mais interessado em como lidar com o material para criar uma emoção em um público”; e em outra: “Estou certo de que um pintor não está interessado nas maçãs [que ele pinta] por si mesmas, mas na técnica do seu trabalho, que estimula a emoção do visualizador do seu quadro”.

Claro que não precisamos ser tão radicais quanto o Sr. Hitchcock. O importante nesse discurso é perceber que um bom cineasta é aquele que sabe contar boas histórias, mas um cineasta genial é aquele que sabe fazer com que qualquer história seja interessante de ser apreciada, mesmo quando ela por si só não pareça ser grande coisa. Porém, isso não quer dizer que não possamos refletir sobre o conteúdo do filme, até porque A Erva do Rato oferece uma boa oportunidade para diferentes interpretações. Sem querer estragar o filme para quem ainda não o assistiu e pretende fazê-lo, em certo ponto ele começa a embrenhar por caminhos bem estranhos, que lembram muito o surrealismo de David Lynch.

Portanto, é lógico que nos dias de hoje um filme como esse é visto com desdém pelo público em geral, porque requer uma sensibilidade do espectador, que geralmente está condicionado a gostar de filmes pela adrenalina ou pelo excesso de sentimentalismo que eles proporcionam. Para quem tiver paciência e curiosidade, desejo um bom filme!

4 comentários:

Thayanne Freitas disse...

Essa postagem me fez lembrar do silêncio tão significativo de Charlie Chaplin e o quanto seus filmes são deliciosos de assistir.

"Portanto, é lógico que nos dias de hoje um filme como esse é visto com desdém pelo público em geral, porque requer uma sensibilidade do espectador, que geralmente está condicionado a gostar de filmes pela adrenalina ou pelo excesso de sentimentalismo que eles proporcionam."

Além de tudo o que você falou acima, acho também que o cinema
nacional sofre muito preconceito, mas percebo que atualmente o público tem dado um pouco mais de valor ao cinema brasileiro.

O download do filme já está em andamento!! :D

E além do link p/ download sugerido na postagem tem tbm esse aqui! ---> http://filmescomlegenda.net/fcl/filmes/a-erva-do-rato-2008/

;)

Camila Travassos disse...

Ainda não vi o filme (na verdade, sinto que isso será uma constante nos meus comentários sobre as tuas indicações, já que não sou tão ligada em cinema assim - mea culpa, admito).

E se tem umas das coisas que mais acho incrível em cinema é justamente o fato de poder não se dizer nada e dizer tudo. Às vezes o mais importante é o foco de um objeto ou a iluminação de um lugar ou o enquadramento, enfim. Coisas que só o cinema, enquanto arte, é capaz de retratar.

Mais um pra minha vasta e quase infinita lista - e ela não pára de crescer.

(:

CA Ribeiro Neto disse...

Não sei que sentimento a pintura de uma maçã, me passa e é justamente esse estilo que é tão criticado na pintura. Acho louvável seu posicionamento, mais do que a do Hithim, mas se preocupar com o conteúdo é algo que todas as artes fazem e não fazê-lo no cinema é dar mais margem para o tipo de filme que você diz não se enquadrar o "A Erva do Rato".

lucas lima disse...

A gente tem que começar a assistir filme junto